Este projeto se insere em um momento de inflexão na trajetória das políticas públicas de saúde no Brasil, marcado pela crescente centralidade da digitalização como estratégia para qualificar o Sistema Único de Saúde (SUS). À luz dos princípios constitucionais de 1988, que instituíram a descentralização e a gestão compartilhada no setor saúde, a construção de uma política pública de tecnologia da informação e comunicação em saúde vem ocorrendo de forma progressiva, iniciando-se com a criação dos primeiros sistemas nacionais pelo DATASUS nos anos 1990 e sendo aprofundada nas décadas seguintes com a expansão do e-SUS AB, da Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) e, mais recentemente, com a formulação do Programa SUS Digital.
Contudo, a compreensão desse processo exige mais do que uma visão tecnocrática: requer um olhar ancorado no arcabouço teórico das políticas públicas. Este estudo considera o ciclo clássico de políticas públicas — formulação, implementação, monitoramento e avaliação —, mas também dialoga com abordagens contemporâneas que enfatizam a coprodução de políticas, a capacidade estatal em níveis subnacionais e a interação entre diferentes tipos de burocracias (clínica, administrativa e tecnológica). A transformação digital do SUS, nesse sentido, é compreendida não apenas como um processo de inovação tecnológica, mas como uma política pública complexa, que envolve múltiplos atores, arenas decisórias e instrumentos de ação.
Nesse marco, o objetivo deste estudo é analisar como a integração de dispositivos digitais para realização de exames e monitoramento de parâmetros biomédicos, no momento da entrada de usuários nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), pode qualificar os processos de cuidado na Atenção Primária à Saúde (APS). Parte-se do pressuposto de que o uso de tecnologias digitais não apenas amplia a resolutividade clínica e melhora a experiência dos usuários, como também pode desencadear transformações organizacionais e gerenciais relevantes para o uso mais eficiente dos recursos públicos.
A pesquisa será conduzida por meio de um processo de coprodução interinstitucional envolvendo a Universidade Federal do ABC (UFABC) e as Secretarias Municipais de Saúde de Santo André, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá e Ribeirão Pires. O projeto articula, assim, inovação tecnológica com dinâmicas locais de gestão pública, reconhecendo a importância da capacidade de implementação e da articulação federativa como condicionantes centrais da efetividade da política.
Serão analisadas a viabilidade técnica, os investimentos necessários, a integração com os sistemas de informação do SUS, a capacitação das equipes, os arranjos de governança e a aderência regulatória. Paralelamente, será observado como os diferentes níveis de burocracia — profissionais clínicos, gestores municipais e articuladores regionais — se engajam com a política, contribuindo para sua institucionalização ou, eventualmente, resistindo à sua incorporação nas práticas cotidianas.
Espera-se que os resultados da pesquisa possam:
Dessa forma, o projeto se configura não apenas como um experimento de inovação em saúde digital, mas como um exercício de fortalecimento da capacidade pública de governar a inovação, gerando conhecimento aplicado e instrumental para a formulação e execução de políticas públicas mais efetivas, equitativas e baseadas em evidências.
Luciana Pereira
Esta pesquisa de doutorado analisa a implementação das políticas públicas de saúde indígena no Brasil a partir da relação entre capacidades estatais, governança federativa e territorialidade indígena. Embora a Constituição Federal de 1988 e a criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena tenham representado avanços institucionais relevantes, persistem desigualdades estruturais relacionadas à precariedade logística, às fragilidades administrativas, às dificuldades de coordenação interfederativa e às limitações da atuação estatal em territórios marcados por elevada complexidade socioterritorial e intercultural.
A pesquisa parte do pressuposto de que os obstáculos à efetivação do direito à saúde indígena não decorrem apenas de insuficiências normativas ou sanitárias, mas das capacidades diferenciadas do Estado brasileiro de implementar políticas públicas em contextos territorialmente complexos. O problema central da investigação consiste em compreender de que maneira capacidades estatais e mecanismos de governança federativa condicionam a implementação das políticas de saúde indígena em territórios diferenciados.
O objetivo geral é analisar como capacidades administrativas, técnico-operacionais, político-relacionais e socioterritoriais influenciam os processos de implementação da política de saúde indígena no Brasil, considerando também o papel da participação social indígena e das agendas contemporâneas relacionadas à transformação digital do SUS, às mudanças climáticas e à abordagem Saúde Única.
Do ponto de vista teórico, a pesquisa articula contribuições dos estudos sobre capacidades estatais, implementação de políticas públicas, governança multinível e federalismo, em diálogo com a literatura sobre saúde indígena e direitos territoriais indígenas.
Metodologicamente, adota abordagem qualitativa de natureza analítico-institucional, combinando análise documental, entrevistas semiestruturadas e análise qualitativa de conteúdo, com foco comparativo entre o DSEI Litoral Sul e o DSEI Xavante.
A principal contribuição da tese consiste em reinterpretar a saúde indígena como problema de capacidades estatais territorializadas, contribuindo para os debates sobre implementação de políticas públicas em contextos multiculturais, desiguais e territorialmente complexos.
Luar Sateré-Mawé
Luciana Pereira
No cenário atual, de sindemia global concomitante à ampla utilização de tecnologias, o presente projeto busca investigar a interseção entre saúde digital e nutrição, destacando o papel transformador das tecnologias digitais na promoção e monitoramento da saúde nutricional de populações vulneráveis, especialmente entre jovens.
O objetivo é investigar como as tecnologias de saúde digital podem ser utilizadas para coletar e acompanhar parâmetros de saúde nutricional. Para isso, serão aplicadas ferramentas disponíveis, como dispositivos multiparâmetro de saúde digital e aplicativos, no contexto do Programa Saúde na Escola (PSE) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), utilizando um desenho metodológico que inclui a seleção de escolas públicas localizadas em regiões de alta vulnerabilidade social, a fim de avaliar a aplicabilidade e eficácia dessas tecnologias no ambiente escolar.
Serão também avaliadas condições de saúde e alimentação dos estudantes, além da qualidade da alimentação oferecida na escola.
Espera-se que os resultados forneçam subsídios para intervenções nutricionais eficazes e baseadas em evidências, auxiliando no monitoramento longitudinal da saúde populacional e promovendo o uso de tecnologias digitais como ferramentas para reduzir desigualdades e melhorar o cuidado nutricional em contextos vulneráveis, promovendo saúde de maneira integrada e centrada nas necessidades locais.
Coordenadora
Jaqueline Lopes Pereira França